Guerra Fria 2.0
A falsa paz pós-91 e a guerra invisível
“A história não se repete, mas muitas vezes rima” dizia Twain. Pois bem: a rima voltou, e soa disso” dizia Twain. Pois bem: a rima voltou, e soa dissonante. A ordem internacional erguida no pós-guerra está em colapso, e não se trata de estamos a caminho de uma nova Guerra Fria — nós já estamos nela. Não há Muro de Berlim, tampouco crise dos mísseis. Há algoritmos, tarifas, dissuasão nuclear multipolar, guerras por procuração e a lenta decomposição de um sistema que insiste em fingir governança global.
O fim da União Soviética narcotizou o Ocidente com uma ilusão: comércio, globalização e democracia liberal criariam um círculo virtuoso de paz. A “Pax Americana” acreditou ter encerrado a História. Mas, como advertiu Samuel Huntington em The Clash of Civilizations, a queda do comunismo não significava o triunfo definitivo do liberalismo, e sim a abertura de um novo ciclo de disputas civilizacionais. Ele estava certo: o colapso do bloco soviético não gerou ordem, mas vazio — e desse vazio emergiram a China, economicamente integrada e tecnologicamente agressiva, e a Rússia, reduzida a “potência disruptiva” que compensa fraqueza estrutural com guerra híbrida, chantagem energética e militarismo.
De um lado, o bloco ocidental — OTAN, AUKUS, União Europeia, G7 — tenta preservar o edifício construído em Bretton Woods. Do outro, BRICS+, Organização de Cooperação de Xangai, eixos Pequim-Moscou-Teerã. Não são apenas alianças, mas visões concorrentes de legitimidade e poder. Huntington antecipou esse cenário ao prever que a política internacional do século XXI seria marcada por choques entre blocos culturais e civilizacionais — e não pela “paz perpétua” prometida por Fukuyama.
Os estopins estão dados: Taiwan como a Sarajevo do nosso século; a Ucrânia já em chamas; o Mar do Sul da China militarizado; estreitos vitais como Ormuz e Bab el-Mandeb reféns de milícias iranianas. Nenhum desses focos isolados precisa incendiar o planeta — mas basta que um deles fuja ao controle para arrastar todos os demais.
E a guerra já não se anuncia como em 1939. Ela se infiltra: ciberataques russos, espionagem chinesa, manipulação de rare earths, deepfakes corroendo democracias ocidentais. Não há tanques no Portão de Brandemburgo — há bots, hacks, tarifas, bancos paralelos ao FMI. É guerra invisível, mas onipresente.
O que torna este cenário mais instável que a Guerra Fria original é a pulverização nuclear, a erosão das instituições criadas sob tutela americana e a corrosão interna do próprio Ocidente, polarizado e em guerra consigo mesmo. Se a lógica da Guerra Fria clássica ainda oferecia uma previsibilidade baseada no equilíbrio bipolar, hoje a imprevisibilidade é a regra.
A questão não é se haverá uma Terceira Guerra Mundial, mas se alguém ainda terá o controle do fósforo quando o barril de pólvora acender. Guerras não são destino, mas escolhas. O drama é que, em 2025, os líderes do mundo parecem cada vez mais inclinados a escolher errado.


